23 de agosto de 2009

3h33m

Comecei a achar que o universo conspirava de alguma maneira, mesmo que eu ainda não soubesse qual. Começou quando acordei na madrugada para mijar e eram 5:55. Olhei no meu digital de cabeceira, dos anos 60. Talvez seja mais novo, na verdade ele já estava aqui quando vim morar e não sei muito sobre a vida anterior dele. Dormi novamente e acordei exatamente às 8:00. Nem mais nem menos, indicavam as luzinhas vermelhas. Achei um pouco estranho, mas a vida em geral, e a minha em especial, é um pouco estranha mesmo. Estava naquela fase de angústia criativa, de uma espécie de letargia morosa, de não saber se dormia mais um pouco, só pro tempo passar mais rápido. Isso acontecia frequentemente, tipo todos os dias. Acabei dormindo um pouco pela tarde e acordei exatamente às 3:33. Lembrei da canção, mas não sabia quem eram os intérpretes. Tentei fingir que não tinha acontecido novamente, mas tinha. Passei o dia todo amarrado, digamos que figurativamente, a uma cadeira fazendo coisas inúteis, até ficar com vontade de deitar e mudar de posição. Me livrei da cadeira, cuidei dos animais da chácara e abri a porta do quarto. Marcava exatamente meia-noite. 12:00. Novamente nem mais nem menos. Tentei entender a mensagem, mas era como se criptografada. Não consegui captar. Apaguei a luz propositalmente em um horário qualquer, não emblemático. Apenas tentei dormir.

Quero apanhar na cara

Alguns amigos já estão avisados dos procedimentos. Acima de tudo, não quero que sejam usados técnicas de ressucitação. Também está terminantemente proibido o uso de analgésicos, morfina ou qualquer substância que aplaque a dor. Não quero ser poupado. Já deixei absolutamente claro que não devo receber qualquer aviso, que o primeiro soco precisa ser na cara, com o máximo de ódio e maldade possíveis. Se possível, gostaria que o nariz fosse quebrado nesse golpe e o melado escorresse. Espero que dê uma certa tontura, mas não o suficiente para que eu caia no chão. Porque o passo seguinte deve ser também um soco, mas na boca do estômago, quando espero sinceramente que eu tenha acabado de comer, para que doa bastante e eu vomite no meio da sala da pessoa que me bate e que isso crie um ódio nela bem forte. A essa altura creio que já vou estar de joelhos, desnorteado e com uma dor bastante grande. A pessoa vai me empurrar com um leve toque com um dos pés e aí sim vou estar completamente indefeso estirado. Não quero sentimentos de piedade ou qualquer outra pieguice. Serão aplicados vários chutes nas costelas, só sendo interrompidos, a critério de quem bate, após um ou mais barulhos de ossos rompendo. Existe uma possibilidade mais ou menos forte de que se inicie uma hemorragia interna neste momento. Paira uma pequena dúvida para o caso de esta não ser fatal, se os chutes devem continuar nas costelas ou passariam para a cabeça. Creio que isso realmente vá ficar à escolha do atacante. Agora resta explicar as situações em que estas ações devem acontecer para que mesmo as pessoas que não tenham recebido instruções pessoalmente, possam agir corretamente em um dos três casos abaixo. É bom deixar claro que em caso de os três acontecerem simultaneamente, não consegui pensar em que mais deve acontecer comigo. Mas vou dar algumas dicas e as pessoas escolhem. Farpas de bambu embaixo das unhas e posterior retirada das unhas. Todas. Eletrodos ligados à bateria de um carro e conectados a órgãos genitais. Ser colocado em uma banheira com aqueles peixinhos da Amazônia que penetram na uretra e no furicutico. Quer dizer, na verdade, me parece que no furicutico não entra não, só na uretra. Então faz tipo aquela tortura chinesa (ou seria nazista, ou seria de outro lugar) de colocar um tubo no furicotico com um camundongo dentro e esquentar a outra extremidade. Ele fica com calorzinho e vai para o outro lado, ou seja, para o seu rabicó.
Voltando às situações em que essas técnicas devem ser usadas (sem muita ordem de importância, já que todas devem ser encaradas como imperdoáveis, apesar de a terceira ser um pouco menos grave):

Número 1: Tatuar qualquer palavra que seja na parte externa do antibraço. Há milhares de exemplos pelas ruas, mas a Preta Gil serve.

Número 2: Aparecer em público usando uma mochila Wilson. 90% dos imbecis da cidade estão usando mochilas Wilson neste momento. E eles não têm vergonha de sair na rua, o que muito me intriga.

Número 3: 90% dos imbecis que usam mochila Wilson, usam anel no polegar. Espero que fiquem presos na porta do ônibus na hora de descer e que o dedo fique lá preso.

E esses 90% estão crescendo e comprando casacos e camisas que têm um rinoceronte nela. Não há mais esperanças.

9 de julho de 2009

Quatro minutos

Eu não fiz nada por quatro minutos, apenas fechei os olhos e pensei em coisas que nunca vão acontecer. Faço isso o tempo todo. Cruzei as pernas, quando já deitado, e em seguida fiz o mesmo com as mãos sobre o peito. Como um morto que aproveitasse o sol em uma praia agradável. Lembrei, ou inventei, não tenho certeza, de que cruzar as pernas assim, dá problemas de coluna. Descruzei e cruzei novamente. É mais forte do que eu. Sempre cruzo as pernas. É automático, sabe? Apreciei a brisa do ventilador, que sopra mesmo sendo inverno. Me sinto sufocado sem o vento ali. Um dos cachorros esbarrou na porta do quarto onde eu fazia nada por quatro minutos. Acho que foi a que não enxerga. Às vezes ela esbarra em coisas, já que não enxerga. Também esbarro em coisas, estabanação ao que me parece. Saí do torpor dos quatro minutos sem fazer nada, pisei no chão frio, abri a porta e nenhum cachorro estava por detrás. Dormiam todos. Todos os 20. Abri a porta da sala que vai para o quintal para fazer um teste, uma oferta para que o xixi fosse feito do lado de fora e não na minha cozinha limpinha. Não fui em que limpei. Alguns olharam de rabo de olho, outros nem acordaram com o barulho das chaves na madeira. Nenhum se animou ao exercício e ficou muito claro que pela manhã eu precisaria de um mocambo que limpasse minha cozinha novamente.

12 de junho de 2009

Replicantes em Hamburgo

3 de junho de 2009

Wander e eu em Winterthur - Suíça

Primeira parte

Hoje é uma terça-feira, o calendário mostra dois de maio. Ontem terminou a terceira tour européia do Jason, meu conjunto de rock. Não tenho tanta certeza no momento, mas foram 37 shows em 46 dias. Talvez 38. Faz-se necessária uma recontagem (sim, foram mesmo 37). Acordamos às 06:00 da manhã para não haver muito risco do cantor e do baterista perderem o avião. Eu e George (baixista) deixamos eles em Frankfurt com check in feito e partimos para Achern (Alemanha) com o intuito de passar a noite por lá, mas no meio do caminho decidimos mudar de trajetória e partimos para a Suíça. Missão dele: dirigir até lá sem bater (não conseguiu). Minha missão: reclamar de pegarmos quatro estradas erradas, achar que ele foi o culpado de bater no retrovisor de um Range Rover novinho (sim, o outro motorista também achou o George culpado) e no final das contas me juntar aos Replicantes. É isso mesmo, o Wander me convidou para viajar com eles quando soube que as nossas tours seriam em datas parecidas e para documentar tudo. Ajoelhado (se eu não tivesse detonado o joelho em Freiburg) no milho juro pela mãe mortinha que farei o melhor possível para que tudo saia bom. Andei um pouco aborrecido com as escritas, achando tudo de qualidade bem questionável. Só que agora não tem mais jeito de voltar atrás. Vai acontecer. Estamos parados no meio do nada no momento. Faltam uns 80 km para chegar a Stuttgart. Limpamos a van para passar pela fronteira suíça, George dorme e eu, claro, escrevo.

São seis da tarde, mas eu não saberia o desfecho do dia antecipadamente. Os Replicantes estão teoricamente em Lausanne. Nós estamos indo para Winterthur, perto de Zurique, onde eles vão tocar amanhã. Vamos (será?) chegar um dia antes no squat e esperar por eles. E então eu pergunto. Como chegar no squat sem o endereço? Não consegui abrir o site no computador 0800 do aeroporto. No meu e-mail não tem nada. As opções são: Ir pra Winterthur e esperar passar alguém de moicano para pedir informação ou procurar o lugar a esmo pela cidade. Uma outra opção seria ir para Zurique, telefonar para o Pedro e dormir no squat que ele mora. Pedro? É. Ele tocou na tour 2001 do Jason na Europa e nunca mais voltou para o Brasil. Sabendo que estou de chegada, ele me passou um número para achar ele por lá. O que o destino reservará para nossos heróis?

Nesse momento Wander dança loucamente ao som de uma banda com uma vocalista com uma voz daquelas que você gostaria de ter se cantasse numa banda de crust da Alemanha. Em seguida ela geme. Eu tomo uma Holsten Edel em uma garrafa que parece um vidro de remédio. É a terceira cerveja a que tenho direito. São dez no total. Tem umas 10.000 pessoas na rua. É um festival que já acontece há 800 anos. Vi um bloco de samba com vários lourinhos batucando, passei pela barraca de cachaça com bandeira da terrinha e acabei de saber que vamos ter que dormir no depósito de cervejas. Claro, somos todos roqueiros, mas a idéia não parece boa. Acabei de passar por lá na volta do banheiro e bem, vai ser uma longa noite pelo visto.
Espero encontrar batata frita por no máximo dois dinheiros e conseguir completar a missão estipulada por mim mesmo que é encontrar uma boa alma que nos hospede em uma casa normal. Já sei quem é a boa alma e gosto da sua casa. Só falta achá-lo em meio a 10.000 pessoas. Wander acabou de passar por aqui. Eles vão começar a tocar em mais ou menos cinco minutos. Impossível não pensar em algumas pessoas quando eles anunciam Boy do Subterrâneo. As mais óbvias são Cid (ex-baterista do Gangrena Gasosa), Chorão (cantor do Gangrena Gasosa) e Vital (ex-cantor do Poindexter, Jason e Jimi James). Imagina alguém em 1987 dizendo pra mim que em 2006 eu estaria em Hamburgo, em vários lugares, Suécia, Noruega, cantando “a minha gangue era aquela do blusão, a minha casa era um canto no porão” junto com a banda que eu ouvia o LP religiosamente todos os dias pela manhã antes de ir para a escola. Eu nem chamaria de maluco porque soaria tão fora de propósito que não valeria à pena. Eis que 19 anos depois de pegar emprestada uma fita K-7 TDK com O Futuro é Vórtex de um lado e o primeiro dos Garotos Podres do outro com um amigo dentro do ônibus 676 indo para a aula, me vejo dentro da van com os caras que mudaram minha existência de rumo. Isso sem contar que meu conjunto de rock também chegou a abrir um show do Garotos lá no longínquo Rio de Janeiro. Se minha missão era dar a visão de fora da banda...ih, eles começaram o show com Surfista. Depois eu continuo.

Os Replicantes

No começo de 2006 recebi um convite desse cara aí cantando pra viajar pela Europa com a banda dele. Ele se chama Wander Wildner e a banda Os Replicantes. Ele viu meu primeiro livro sobre o Jason, curtiu e quando soube que eu iria novamente em turnê, me chamou pra ir com eles depois da nossa viagem e escrever um livro sobre a tour deles pra sair junto com o dvd que eles gravariam por lá. Tiver que remanejar algumas datas do Jason pra que encaixasse com a deles. No final recebemos mais convites, alguns legais e nossa tour terminaria num domingo, eu acho, e a deles começava no sábado. Algo assim. O fato é que perdi os dois primeiros shows deles na Suíça, até poder terminar a minha tour e começar a deles. Escrevi, ficou legal e tal, mas WW saiu da banda, o dvd nunca foi feito, não tenho $$ pra publicar como livro, etc etc. Então resolvi publicar por aqui e lê quem for a fim, né. Aí abaixo vai uma parte. Vou ver se coloco mais fotos também. Até.

25 de maio de 2009

Soutien Xiita e o apocalipse das trevas

Soutien Xiita e o apocalipse das trevas

Talvez caiba um pouco de história do rock neste começo como forma de introduzi-los no universo vigente de minha brilhante carreira musical. Corria o ano de 91 e eu Cláudio fizemos sete músicas em um mesmo dia. Será que dá para chamar de canções? Todas de duas ou três notas e letras imbecis. Fato. Não questionável. Em 92 começamos nossa fantástica trajetória rumo ao nada, o que é absolutamente, neste ponto, questionável. O que é o nada? Nos divertimos por algum tempo, brigamos por muito tempo, mudamos de formação, fizemos coisas estranhas, viajamos, gravamos e lançamos um disco praticamente póstumo. Acho que em 99, já tínhamos parado há uns três anos, ou algo assim, e voltamos apenas para gravar o álbum e terminar oficialmente no show de lançamento. Em priscas eras, tocávamos com Poindexter, Gangrena Gasosa, Piu Piu, ASS, Sex Noise, Planet Hemp ainda com o Skunk, esse povo todo. Fizemos o possível com o que estava em nossas mãos. Pula para 2008.

Lá estava eu em Belo Horizonte, na última cidade da primeira parte da tour do meu segundo livro, num show de rock sujo, com Dead Fish e Confronto, entre outras, quando reconheço um jovem numa rodinha de conversas desconexas. Minha sandália dupé grudava na lama de cerveja e tive dificuldade de me locomover por alguns centímetros e falar algo como:

- Você é o Paulista do Reffer, né?

- Pô, como você me reconheceu, to disfarçado de cidadão normal.

A conversa literal não foi essa, mas quem se lembraria de tudo?

- Ah, sei lá. Lembrei de já ter visto show ou ouvido disco, não sei. Eu sou o Panço.

- Tu não tocava no Soutien Xiita?

Ser reconhecido por ter tocado no Soutien é tão raro, que espanta. De qualquer modo fui tentado a confirmar.

- Pô cara, to emocionado de te conhecer.

Ele tava era bêbado. Quando ler isso, vai desmentir, mas já vai ter sido publicado. Aí teremos que ir para os tribunais de pequenas causas.

- Como assim?

- Pô, o Soutien Xiita foi a primeira banda que eu vi ao vivo, lá no Squat, aqui em BH. Eu tinha 13 anos e foi a primeira vez que a minha mãe deixou eu sair de casa pra ir num show. Você foi o primeiro guitarrista que eu vi ao vivo.

Aí fui eu que me emocionei, claro. E não estava bêbado. Quatro reais uma cerveja ruim e quente, não tem como. Era como se fosse eu em uma conversa, que nunca aconteceu, com o Roger do Ultraje ou o Carlinhos. Meu primeiro show foi deles também aos 13, no Canecão. Ou então falando com o Belotto que achava muito fodão quando ele entrava de lenço na cara tipo fora da lei com a sua Jackson azul.

- Eu lembro até hoje das coisas que o vocalista (o Cláudio lá de cima) fez. Ele ficava cantando de frente para a parede.

E lá foi ele mostrar em frente a uma parede. Cabelada (baixista do conjunto) diz que se lembra disso. Eu não, nem o cantor.

- Eu comprei a demo naquele dia e tenho até hoje.

Estamos falando de fita cassete ainda, afinal corria o ano de 1993, nem neste século foi.

O tempo apagou fragmentos da conversa, mas salvou o dia, a semana, o mês. Já estava na estrada há semanas, umas quatro, cinco, com saudade de casa e no eterno questionamento, que não termina nunca (por isso eterno) sobre se vale a pena, se devo parar, se continuo, se isso ou aquilo. No ano em que completei 20 anos desde meu primeiro conjunto musical de rock em 88, o UZI, com o mesmo Cláudio e Mutley do Soutien, certas coisas fizeram sentido, certos sacrifícios fizeram sentido. Mesmo que ele nem tenha lembrado da conversa no dia seguinte.

O faxineiro dos Beatles

O faxineiro dos Beatles

Com a visão além do alcance para os possíveis eventos festivos do final de semana, com alguma possibilidade de invasão gratuita e, quiçá algo mais, deparei-me com dois concertos da Pitty para o domingo. Um pela tarde na Lona Cultural de Anchieta e um à noite na Lona de Vista Alegre, pertinho de casa, podendo voltar a pé após as celebrações roqueiras, que não iriam até tão tarde assim, já que eles precisavam ir embora para algum lugar. Invadimos o primeiro rock, eu e David, baixista do Jason, meu conjunto musical naqueles longínquos dias difíceis de inverno. A cantora encontrava-se no seu camarim, mas os músicos estavam do lado de fora, apesar de longe do alcance de seus jovens seguidores. Consegui uma cerveja, duas, três e ficamos ali na social. Mais tarde a band leader saiu e estava com dois detalhes importantes para o dia. Mais bonita e mais simpática que nunca. Cumprimentamo-nos e o show começou à vera. David estava generoso e continuamos bebendo várias latas a suas custas. Quem te viu quem te vê. Os planos incluíam entrar na van dos artistas para conseguirmos chegar ao segundo show sem ser de transporte coletivo, tarefa totalmente dispensável. Pedido feito, pedido aceito, e entramos lá no cantinho. Na hora de sair, me teletransportei para o filme "Febre da Juventude", em que fãs tentam ver os Beatles na Nova York dos anos 60 no programa de Ed Sullivan (será?) e tentam ganhar convites para tentar chegar perto. Esse filme é obrigatório. E os rostos dos Beatles nunca aparecem, como se fossem a professora do Charlie Brown ou a empregada da casa do Tom e Jerry. O motorista começou a dirigir e a multidão cercou o carro, balançando como no DVD dos Ramones na Argentina, sacudindo tudo. Claro que era só uma carona e que para eles era só mais um final de semana de rock stars, mas achei o máximo.

- Porra, David, nós somos os faxineiros dos Beatles.

Viramos mais uma latinha e fomos até o outro show, onde o povo começou a gritar e tirar fotos quando a van entrou no estacionamento. É capaz de eu estar em algum destes registros, tipo aquele coroa que aparece em todas as reportagens da TV Globo de terno lá no fundo. Ele fica sabendo, sabe-se lá como, e vai atrás para aparecer. Mais tarde o negócio pegou fogo, o show foi fantástico e entrei no meio da roda com a juventude portando minha sandália dupé, um genérico das havaianas, que ganhei quando comprei camisas demais em uma loja do Saara para pintar e vender.

- O senhor tem direito a um chinelo.

- Hã?

- O senhor tem direito a um chinelo.

- Ah, tá.

Acabei conseguindo uma carona depois para casa e levando uma gatinha doente que achei no camarim. Não estava em poder das minhas faculdades mentais e no dia seguinte soube que poderia ter pego uma doença não muito saudável. Tomei uma decisão ruim e influenciado pela doutora, mandamos a gatinha para o céu dos gatos. Envolvia muita coisa e outras pessoas teriam que ajudar em minha ausência, que aconteceria em poucos dias. Era complexo e o tratamento levaria mais de um ano. E claro que esse assunto, não tinha a ver com o assunto inicial, e não sei, mas algo me diz que não foi a melhor decisão.

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Máxima do dia: nem todo mundo pode ser o paul e o john. Alguns são o George, outros o Ringo. E pior, muitos e muitos são Pete Best. Pra mim se eu chegar a Ringo tá de ótimo tamanho.

5 de janeiro de 2009

Goiânia Noise Festival




Goiânia Noise Festival

O principal e mais atraente festival de rock do Brasil começou sua seqüência de shows na sexta-feira dia 21/11, logo após alguns dias de feiras de equipamento, com vários gringos presentes, palestras e workshops. Cheguei apenas aos 46 do segundo tempo desta programação, a ponto de ver apenas o show do Macaco Bong na quinta-feira. O trio cuiabano de música instrumental fez a apresentação de sempre, ou seja, cativante, virtuosa e desbundante.

Com uma estrutura de dar inveja a vários eventos gringos e realizado com lindo Centro Cultural Oscar Niemeyer, o rock começou a soar no palco tramavirtual no começo da noite de sexta com os locais do Gloom. Difícil não falar da jovem cantora e guitarrista, que desce a mão, sola e comanda bem. Falta só dar uma afinada na voz em alguns momentos mais calmos. Em seguida os também jovens da casa Demosonic tocaram no mesmo local e mostraram um som que não fica guardado na mente. Com precisão cirúrgica os concertos iam se revezando a partir daí neste palco e no grandão, modestamente denominado palco
Monstro. Aí sim o lugar era mais lindo ainda. Ar condicionado bombando, carpete, cadeiras pros tios sentarem um pouco mais atrás da juventude e o principal, Iuri Freiberger fazendo o P.A. e mandando ver na qualidade altamente pró. Diego de Moraes e o Sindicato (GO) bem chato, Holger bem legal, apesar de Pavement demais, Mickey Junkies competente, mas ancorado nos anos 90, datado até o quanto é possível ser datado. Os locais do Backbiters foram como muitas outras bandas. Tem que pensar em algo que marque. O quarterto americano Calumet-Hecla, em tour pelo Brasil com uns 12 shows, mandou ver naquele tipo de som mais ou menos em voga no under mundial. Instrumental pesado, microfonias, esquisitices a la Sonic Youth, poucos vocais, harmonias estranhas. Arrebentaram. O Continental Combo fez um bom show, mas parecia que eu estava ouvindo Violeta de Outono. A mesma voz, mesmos efeitos, a mesma viagem. Em seguida o melhor show do dia, com o sexteto carioca Canastra, agora com o hermano Barba nas baquetas. Boas músicas, ótimos covers, baixo acústico, coreografias desengonçadas, jazz, rockabilly, New Orleans. O povo pediu mais uma, mas em festival não dá para atender. O bom é que fica o gostinho e eles voltam mais tarde. Os goianienses do Motherfish foram legais também, mas não sei se preciso me aprofundar na cultura local. O fato é que tenho dificuldade em assimilar e guardar, se não for o Mechanics e o MQN. Será por causa dos cantores? O herói da garotada Frank Jorge desfilou seus vários hits, que na verdade descobri que pouca gente conhecia, mas fez um ótimo show, apesar de ele depois ter dito que foi ruim, já que foram sem o baixista, que desistiu em cima da hora, e ele teve que trocar as seis cordas por quatro. De Brasília o duo Lucy and the Popsonics fez o povo dançar e mostrou mais segurança depois das apresentações na gringa. Em seguida um grupo que muita gente esperava, mas não eu. Vaselines, da Escócia. Tem toda uma história em volta do grupo, já que Eugene Kelly e Frances McKee, eram chamados de "meus compositores favoritos do mundo inteiro" por Kurt Cobain, o que fez o Nirvana gravar canções do grupo como "Jesus don´t want me for a sun beam" e "Molly´s Lips". Como se isso não bastasse, eles trouxeram dois membros do Belle & Sebastian (Stevie Jackson e Bobby Kildea) para compor o grupo e como se não fosse suficiente, trouxeram Michael na bateria. Quem? Aquele, da música do Franz Ferdinand, "i wanna dance with Michael" e que toca no 1990´s. Tocaram as músicas que as pessoas esperavam, foi legalzinho, mas nada demais. Em seguida nova troca para o palco menor e os festejados americanos do Black Lips, fizeram mais ou menos o mesmo show dos escoceses. Nada mais que legal. Não compreendi o motivo do hype. Fechando a primeira noite o (ex) hermano Marcelo Camelo, acompanhando do Hurtmold, essa sim uma grande escolha de como se montar uma banda para uma turnê. O show foi meio lento demais, ainda preciso de algo mais roqueiro. Só que nas canções mais conhecidas como "Janta" e duas de sua (ex) banda "Pois é" e "Morena", eu cantei junto. Então o que falta? Conhecer mais o repertório? Talvez. Um bom show de qualquer modo.

A segunda noite começou com três grupos locais: Cicuta, Mersault e a Máquina de Escrever e Mugo, com algum destaque para o vocal gutural do cantor desta última. O bicho pegou mesmo na apresentação dos pernambucanos do Amp. Top 3 do evento, no máximo Top 5. Peso, competência, stoner, metal, raiva, descontração. Perfeito. O Guizado fez um bom show de post rock (será), seguido pelos locais do Black Drawing Chalks, que deram conta do recado. Os Ambervisions profanaram o palco principal e fizeram uma mostra de thrash surf music zombies. Pela primeira vez na cidade o Gangrena Gasosa profanou mais ainda com o saravá metal de quase 20 anos, fazendo um show arrebatador e jogando despacho em todos os desavisados. The Dead Rocks fez uma apresentação legal, mas nada demais. No mundo do surf music, tem bandas mais interessantes. O MQN jogou em casa com W.O. do adversário, vitória garantida. Com o grande frontman Fabrício, foi levar todo o público para cima do palco e festejar. Onde estaria eu na apresentação do Cabruera? O Black Melkon da Inglaterra, foi interessante, mas já ficou para trás na memória. Valeu mais por ter Marco Butcher, um dos grandes caras do rock brasileiro, participando da apresentação. Em seguida o palco principal viu um outro Black, o Mountain (FOTO). Os canadenses tinham o melhor som de guitarra entre todas as bandas, músicas ótimas, climinhas bons, um pouco stoner, mas com piano e voz feminina, às vezes masculina. Top 3 fácil. Depois entraram os super posers finlandeses do The Flaming Sideburns e mostraram algo muito próximo do Hellacopters, com bastante energia e glitter. Foi mal, mas mesmo tendo o grande B. Negão soltando a garganta, ver o Instituto tocando Tim Maia não dava a essa hora depois de tantos grupos.

A última noite teve as pratas da casa Figado Killer, Goldfish Memories e Heaven´s Guardian, dando início ao rock, mas no Hillbilly Rawhide as coisas animaram mais. Tios curitibanos tatuados do rockabilly fazendo country, de banjo, chapéu e calça justa. Motek da Bélgica? Putz, não lembro de nada. Bang Bang Babies, menos ainda. Em seguida no palco maior o The Ganjas do Chile. Chato. Psicodélico, pesado, bem feito. Mas chato. O Mechanics lançava neste dia um CD mezzo acústico de uma trilha sonora de um filme e se apresentou assim no começo do concerto. Deu muito certo não. O bicho só pegou com as guitarras mais tarde. Aí sim. Mais de uma década sem ver uma apresentação do Loop B. Sempre divertido vê-lo interagir com objetos muito loucos como pedaços de ferros, apitos, utensílios domésticos. Tudo em cima de bases eletrônicas. Talvez o som mais alto ajudasse um pouco. Os argentinos do The Tormentos mostraram um bom surf music, mas manjadaço. O Claustrofobia foi um pouco prejudicado por problemas no som, com a voz meio baixa e até o P.A. desligando totalmente. Já vi melhores, mas mesmo assim foi bom. O Periferia SA é o Ratos de Porão da primeira formação: Jão, seu primo Betinho e Jabá. Mas só o atual guitarrista do Ratos apareceu, com a cozinha sendo substituída por Bauer na bateria e Jeff do Agrotóxico no baixo. Jão é super herói da garotada, né. Quase trinta anos de serviços prestados ao punk nacional e o que ele faz, tá bem feito. Só as letras que são um pouco 82 demais da conta. Os Inocentes com Clemente e Ronaldo nas guitarras fizeram um show bom, basicamente calcado na década de 80. Muito pouco feito depois disso entrou. Surpresa para o cover de "Franzino Costela" dos cariocas do Sex Noise. Fecharam com Clash. Para encerrar o Goiânia Noise, 130 decibéis de som, o mesmo que uma turbina de avião, fizeram o show do Helmet ser prejudicado. Deu dor de ouvido, matou algumas células irrecuperáveis, mas a banda não se importou, nem a maior parte do público. O show foi longo, tocaram "Unsung", Page Hamilton estava jovem do alto de seus 50 anos (isso tudo?), estava animado, feliz e a banda coesa, descendo a lenha. Um pouquinho mais baixo e seria perfeito. De qualquer modo de pertinho assim, foi a coisa mais pesada que já ouvi na vida. Longa vida ao Noise. Que não tenha dado prejuízo e que tenham verba forte em 2009.

14 de dezembro de 2008

Tour do Caras dessa idade já não lêem manuais