Goiânia Noise Festival
O principal e mais atraente festival de rock do Brasil começou sua seqüência de shows na sexta-feira dia 21/11, logo após alguns dias de feiras de equipamento, com vários gringos presentes, palestras e workshops. Cheguei apenas aos 46 do segundo tempo desta programação, a ponto de ver apenas o show do Macaco Bong na quinta-feira. O trio cuiabano de música instrumental fez a apresentação de sempre, ou seja, cativante, virtuosa e desbundante.
Com uma estrutura de dar inveja a vários eventos gringos e realizado com lindo Centro Cultural Oscar Niemeyer, o rock começou a soar no palco tramavirtual no começo da noite de sexta com os locais do Gloom. Difícil não falar da jovem cantora e guitarrista, que desce a mão, sola e comanda bem. Falta só dar uma afinada na voz em alguns momentos mais calmos. Em seguida os também jovens da casa Demosonic tocaram no mesmo local e mostraram um som que não fica guardado na mente. Com precisão cirúrgica os concertos iam se revezando a partir daí neste palco e no grandão, modestamente denominado palco
Monstro. Aí sim o lugar era mais lindo ainda. Ar condicionado bombando, carpete, cadeiras pros tios sentarem um pouco mais atrás da juventude e o principal, Iuri Freiberger fazendo o P.A. e mandando ver na qualidade altamente pró. Diego de Moraes e o Sindicato (GO) bem chato, Holger bem legal, apesar de Pavement demais, Mickey Junkies competente, mas ancorado nos anos 90, datado até o quanto é possível ser datado. Os locais do Backbiters foram como muitas outras bandas. Tem que pensar em algo que marque. O quarterto americano Calumet-Hecla, em tour pelo Brasil com uns 12 shows, mandou ver naquele tipo de som mais ou menos em voga no under mundial. Instrumental pesado, microfonias, esquisitices a la Sonic Youth, poucos vocais, harmonias estranhas. Arrebentaram. O Continental Combo fez um bom show, mas parecia que eu estava ouvindo Violeta de Outono. A mesma voz, mesmos efeitos, a mesma viagem. Em seguida o melhor show do dia, com o sexteto carioca Canastra, agora com o hermano Barba nas baquetas. Boas músicas, ótimos covers, baixo acústico, coreografias desengonçadas, jazz, rockabilly, New Orleans. O povo pediu mais uma, mas em festival não dá para atender. O bom é que fica o gostinho e eles voltam mais tarde. Os goianienses do Motherfish foram legais também, mas não sei se preciso me aprofundar na cultura local. O fato é que tenho dificuldade em assimilar e guardar, se não for o Mechanics e o MQN. Será por causa dos cantores? O herói da garotada Frank Jorge desfilou seus vários hits, que na verdade descobri que pouca gente conhecia, mas fez um ótimo show, apesar de ele depois ter dito que foi ruim, já que foram sem o baixista, que desistiu em cima da hora, e ele teve que trocar as seis cordas por quatro. De Brasília o duo Lucy and the Popsonics fez o povo dançar e mostrou mais segurança depois das apresentações na gringa. Em seguida um grupo que muita gente esperava, mas não eu. Vaselines, da Escócia. Tem toda uma história em volta do grupo, já que Eugene Kelly e Frances McKee, eram chamados de "meus compositores favoritos do mundo inteiro" por Kurt Cobain, o que fez o Nirvana gravar canções do grupo como "Jesus don´t want me for a sun beam" e "Molly´s Lips". Como se isso não bastasse, eles trouxeram dois membros do Belle & Sebastian (Stevie Jackson e Bobby Kildea) para compor o grupo e como se não fosse suficiente, trouxeram Michael na bateria. Quem? Aquele, da música do Franz Ferdinand, "i wanna dance with Michael" e que toca no 1990´s. Tocaram as músicas que as pessoas esperavam, foi legalzinho, mas nada demais. Em seguida nova troca para o palco menor e os festejados americanos do Black Lips, fizeram mais ou menos o mesmo show dos escoceses. Nada mais que legal. Não compreendi o motivo do hype. Fechando a primeira noite o (ex) hermano Marcelo Camelo, acompanhando do Hurtmold, essa sim uma grande escolha de como se montar uma banda para uma turnê. O show foi meio lento demais, ainda preciso de algo mais roqueiro. Só que nas canções mais conhecidas como "Janta" e duas de sua (ex) banda "Pois é" e "Morena", eu cantei junto. Então o que falta? Conhecer mais o repertório? Talvez. Um bom show de qualquer modo.
A segunda noite começou com três grupos locais: Cicuta, Mersault e a Máquina de Escrever e Mugo, com algum destaque para o vocal gutural do cantor desta última. O bicho pegou mesmo na apresentação dos pernambucanos do Amp. Top 3 do evento, no máximo Top 5. Peso, competência, stoner, metal, raiva, descontração. Perfeito. O Guizado fez um bom show de post rock (será), seguido pelos locais do Black Drawing Chalks, que deram conta do recado. Os Ambervisions profanaram o palco principal e fizeram uma mostra de thrash surf music zombies. Pela primeira vez na cidade o Gangrena Gasosa profanou mais ainda com o saravá metal de quase 20 anos, fazendo um show arrebatador e jogando despacho em todos os desavisados. The Dead Rocks fez uma apresentação legal, mas nada demais. No mundo do surf music, tem bandas mais interessantes. O MQN jogou em casa com W.O. do adversário, vitória garantida. Com o grande frontman Fabrício, foi levar todo o público para cima do palco e festejar. Onde estaria eu na apresentação do Cabruera? O Black Melkon da Inglaterra, foi interessante, mas já ficou para trás na memória. Valeu mais por ter Marco Butcher, um dos grandes caras do rock brasileiro, participando da apresentação. Em seguida o palco principal viu um outro Black, o Mountain (FOTO). Os canadenses tinham o melhor som de guitarra entre todas as bandas, músicas ótimas, climinhas bons, um pouco stoner, mas com piano e voz feminina, às vezes masculina. Top 3 fácil. Depois entraram os super posers finlandeses do The Flaming Sideburns e mostraram algo muito próximo do Hellacopters, com bastante energia e glitter. Foi mal, mas mesmo tendo o grande B. Negão soltando a garganta, ver o Instituto tocando Tim Maia não dava a essa hora depois de tantos grupos.
A última noite teve as pratas da casa Figado Killer, Goldfish Memories e Heaven´s Guardian, dando início ao rock, mas no Hillbilly Rawhide as coisas animaram mais. Tios curitibanos tatuados do rockabilly fazendo country, de banjo, chapéu e calça justa. Motek da Bélgica? Putz, não lembro de nada. Bang Bang Babies, menos ainda. Em seguida no palco maior o The Ganjas do Chile. Chato. Psicodélico, pesado, bem feito. Mas chato. O Mechanics lançava neste dia um CD mezzo acústico de uma trilha sonora de um filme e se apresentou assim no começo do concerto. Deu muito certo não. O bicho só pegou com as guitarras mais tarde. Aí sim. Mais de uma década sem ver uma apresentação do Loop B. Sempre divertido vê-lo interagir com objetos muito loucos como pedaços de ferros, apitos, utensílios domésticos. Tudo em cima de bases eletrônicas. Talvez o som mais alto ajudasse um pouco. Os argentinos do The Tormentos mostraram um bom surf music, mas manjadaço. O Claustrofobia foi um pouco prejudicado por problemas no som, com a voz meio baixa e até o P.A. desligando totalmente. Já vi melhores, mas mesmo assim foi bom. O Periferia SA é o Ratos de Porão da primeira formação: Jão, seu primo Betinho e Jabá. Mas só o atual guitarrista do Ratos apareceu, com a cozinha sendo substituída por Bauer na bateria e Jeff do Agrotóxico no baixo. Jão é super herói da garotada, né. Quase trinta anos de serviços prestados ao punk nacional e o que ele faz, tá bem feito. Só as letras que são um pouco 82 demais da conta. Os Inocentes com Clemente e Ronaldo nas guitarras fizeram um show bom, basicamente calcado na década de 80. Muito pouco feito depois disso entrou. Surpresa para o cover de "Franzino Costela" dos cariocas do Sex Noise. Fecharam com Clash. Para encerrar o Goiânia Noise, 130 decibéis de som, o mesmo que uma turbina de avião, fizeram o show do Helmet ser prejudicado. Deu dor de ouvido, matou algumas células irrecuperáveis, mas a banda não se importou, nem a maior parte do público. O show foi longo, tocaram "Unsung", Page Hamilton estava jovem do alto de seus 50 anos (isso tudo?), estava animado, feliz e a banda coesa, descendo a lenha. Um pouquinho mais baixo e seria perfeito. De qualquer modo de pertinho assim, foi a coisa mais pesada que já ouvi na vida. Longa vida ao Noise. Que não tenha dado prejuízo e que tenham verba forte em 2009.