12 de junho de 2009

Replicantes em Hamburgo

3 de junho de 2009

Wander e eu em Winterthur - Suíça

Primeira parte

Hoje é uma terça-feira, o calendário mostra dois de maio. Ontem terminou a terceira tour européia do Jason, meu conjunto de rock. Não tenho tanta certeza no momento, mas foram 37 shows em 46 dias. Talvez 38. Faz-se necessária uma recontagem (sim, foram mesmo 37). Acordamos às 06:00 da manhã para não haver muito risco do cantor e do baterista perderem o avião. Eu e George (baixista) deixamos eles em Frankfurt com check in feito e partimos para Achern (Alemanha) com o intuito de passar a noite por lá, mas no meio do caminho decidimos mudar de trajetória e partimos para a Suíça. Missão dele: dirigir até lá sem bater (não conseguiu). Minha missão: reclamar de pegarmos quatro estradas erradas, achar que ele foi o culpado de bater no retrovisor de um Range Rover novinho (sim, o outro motorista também achou o George culpado) e no final das contas me juntar aos Replicantes. É isso mesmo, o Wander me convidou para viajar com eles quando soube que as nossas tours seriam em datas parecidas e para documentar tudo. Ajoelhado (se eu não tivesse detonado o joelho em Freiburg) no milho juro pela mãe mortinha que farei o melhor possível para que tudo saia bom. Andei um pouco aborrecido com as escritas, achando tudo de qualidade bem questionável. Só que agora não tem mais jeito de voltar atrás. Vai acontecer. Estamos parados no meio do nada no momento. Faltam uns 80 km para chegar a Stuttgart. Limpamos a van para passar pela fronteira suíça, George dorme e eu, claro, escrevo.

São seis da tarde, mas eu não saberia o desfecho do dia antecipadamente. Os Replicantes estão teoricamente em Lausanne. Nós estamos indo para Winterthur, perto de Zurique, onde eles vão tocar amanhã. Vamos (será?) chegar um dia antes no squat e esperar por eles. E então eu pergunto. Como chegar no squat sem o endereço? Não consegui abrir o site no computador 0800 do aeroporto. No meu e-mail não tem nada. As opções são: Ir pra Winterthur e esperar passar alguém de moicano para pedir informação ou procurar o lugar a esmo pela cidade. Uma outra opção seria ir para Zurique, telefonar para o Pedro e dormir no squat que ele mora. Pedro? É. Ele tocou na tour 2001 do Jason na Europa e nunca mais voltou para o Brasil. Sabendo que estou de chegada, ele me passou um número para achar ele por lá. O que o destino reservará para nossos heróis?

Nesse momento Wander dança loucamente ao som de uma banda com uma vocalista com uma voz daquelas que você gostaria de ter se cantasse numa banda de crust da Alemanha. Em seguida ela geme. Eu tomo uma Holsten Edel em uma garrafa que parece um vidro de remédio. É a terceira cerveja a que tenho direito. São dez no total. Tem umas 10.000 pessoas na rua. É um festival que já acontece há 800 anos. Vi um bloco de samba com vários lourinhos batucando, passei pela barraca de cachaça com bandeira da terrinha e acabei de saber que vamos ter que dormir no depósito de cervejas. Claro, somos todos roqueiros, mas a idéia não parece boa. Acabei de passar por lá na volta do banheiro e bem, vai ser uma longa noite pelo visto.
Espero encontrar batata frita por no máximo dois dinheiros e conseguir completar a missão estipulada por mim mesmo que é encontrar uma boa alma que nos hospede em uma casa normal. Já sei quem é a boa alma e gosto da sua casa. Só falta achá-lo em meio a 10.000 pessoas. Wander acabou de passar por aqui. Eles vão começar a tocar em mais ou menos cinco minutos. Impossível não pensar em algumas pessoas quando eles anunciam Boy do Subterrâneo. As mais óbvias são Cid (ex-baterista do Gangrena Gasosa), Chorão (cantor do Gangrena Gasosa) e Vital (ex-cantor do Poindexter, Jason e Jimi James). Imagina alguém em 1987 dizendo pra mim que em 2006 eu estaria em Hamburgo, em vários lugares, Suécia, Noruega, cantando “a minha gangue era aquela do blusão, a minha casa era um canto no porão” junto com a banda que eu ouvia o LP religiosamente todos os dias pela manhã antes de ir para a escola. Eu nem chamaria de maluco porque soaria tão fora de propósito que não valeria à pena. Eis que 19 anos depois de pegar emprestada uma fita K-7 TDK com O Futuro é Vórtex de um lado e o primeiro dos Garotos Podres do outro com um amigo dentro do ônibus 676 indo para a aula, me vejo dentro da van com os caras que mudaram minha existência de rumo. Isso sem contar que meu conjunto de rock também chegou a abrir um show do Garotos lá no longínquo Rio de Janeiro. Se minha missão era dar a visão de fora da banda...ih, eles começaram o show com Surfista. Depois eu continuo.

Os Replicantes

No começo de 2006 recebi um convite desse cara aí cantando pra viajar pela Europa com a banda dele. Ele se chama Wander Wildner e a banda Os Replicantes. Ele viu meu primeiro livro sobre o Jason, curtiu e quando soube que eu iria novamente em turnê, me chamou pra ir com eles depois da nossa viagem e escrever um livro sobre a tour deles pra sair junto com o dvd que eles gravariam por lá. Tiver que remanejar algumas datas do Jason pra que encaixasse com a deles. No final recebemos mais convites, alguns legais e nossa tour terminaria num domingo, eu acho, e a deles começava no sábado. Algo assim. O fato é que perdi os dois primeiros shows deles na Suíça, até poder terminar a minha tour e começar a deles. Escrevi, ficou legal e tal, mas WW saiu da banda, o dvd nunca foi feito, não tenho $$ pra publicar como livro, etc etc. Então resolvi publicar por aqui e lê quem for a fim, né. Aí abaixo vai uma parte. Vou ver se coloco mais fotos também. Até.